Buscar
  • Nikelen Witter

A leitura partilhada

Atualizado: 2 de Jun de 2019


Quando se começa a estudar a história da leitura uma das primeiras coisas que se aprende é sobre o papel da leitura partilhada. Em outras palavras, em sociedades de maioria analfabeta, a presença dos leitores que leem e de outros que escutam é uma regra. Aliás, é como substituta da fala que a leitura nasce e foi na voz do outro que a leitura chegou à maioria das pessoas por um longuíssimo tempo. Quando a estrutura da leitura começou a mudar e, lentamente, se passou a construir a leitura silenciosa, transformações fundamentais ocorreram, tanto na compreensão do mundo, como nos inventos que passaram a povoá-lo, num número cada vez maior.

No entanto, o advento da leitura silenciosa – ocorrido em algum ponto do mundo medieval, pensando em termos de Ocidente – não modificou nem a primazia, nem a necessidade da leitura falada.

Há quem acredite que foi a invenção de Gutemberg que permitiu à leitura tornar-se mais próxima, mais cotidiana. De fato, a letra impressa aumentou o número de livros e textos, mas não o de leitores. Ao menos, não substancialmente. Foi no século XIX, com aumento da escolaridade e da alfabetização que as coisas começaram efetivamente a mudar. Como é preciso dar a César o que é de César, é bom lembrar que este processo se inicia inspirado pela difusão das ideias iluministas que acreditavam que a diferença entre os homens estava em suas bases culturais e não em seu nascimento (Marx ainda não havia dito que as bases eram também sociais).


É no conjunto de transformações, de que o século XIX, foi palco que nasce aquilo que se veio a chamar de cultura de massa. Ora, não se pode pensar que esta surge em razão do aumento do numero de textos, sua base fundamental é o aumento do compartilhamento destes textos. E é neste ponto que devemos ajustar o nosso olhar ao passado. O aumento do número de leitores, neste contexto, não queria dizer apenas mais pessoas lendo em silêncio, mas, principalmente, mais pessoas lendo umas para as outras. Se em uma casa houvesse um alfabetizado, logo, o número de leitores ouvintes multiplicava-se. O leitor ocupava o centro dos entretenimentos noturnos, mas também podia ser visto nas esquinas, nas praças, nas boticas, nos cafés. Sempre cercado de seus leitores ouvintes.


Antes da metade do século, o investimento nessa nova “área cultural” – a das massas – já havia criado livros de tamanho e preço irrisórios, já criara o romance à vapor – com um capitão e vários ajudantes – para publicar em quantidade para um público cada vez mais ávido de emoções. Encontrou-se o tesouro? A jovem conseguiu casar-se com quem queria e não como pretendente paterno? Havia fantasmas na casa? Uma máquina para andar sob o mar poderia realmente existir? Conquistaríamos a lua? A tensão irmanava o público sedento por narrativas.

Ora, esta relação entre os textos e a leitura fazia com que desde há muito os autores fossem eles próprios a lerem seus textos para seu publico. No XIX, esta prática já comum aos salões aristocráticos e burgueses, adentrou os palcos. Não era teatro, mas leitura. Um autor que lia seu texto de forma forte, dramática, para depois conversar com seu público e estimular-lhe a leitura de outras partes de sua obra. O mais célebre destes autores-leitores foi Charles Dickens. Uns acreditam ter sido o escritor inglês a primeira grande celebridade literária, não se possa esquecer daqueles dois franceses, diferentes no estilo, mas de fama igualmente internacional: Alexandre Dumas pai e Victor Hugo.


Sou uma admiradora de Dickens, não nego. E, igualmente, dos outros dois. Dumas marcou minha infância com suas aventuras; Hugo e Dickens introduziram minha experiência literária no engajamento social. Afora isso, me lembro de, há muito, ter conhecimento das leituras de Dickens e tratá-las como uma espécie de relíquia de outro tempo. Claro que ouvir leituras ainda é um ato presente: audio-books, audio-contos, etc. Mas, com certeza, não é a mesma coisa. Primeiro, porque no caso dos audio-books e audio-contos nem sempre é o autor quem lê; depois, é diferente porque não há encontro entre o leitor/autor e o público. Não há o contato.


Alguns escritores mais recentes têm retomado esta prática, lendo trechos de suas obras em seus lançamentos ou em palestras. Apenas aqueles mais incensados se aventuram a ler capítulos inteiros. No geral, pesa a ideia de que o público não aguentaria, se entediaria, ou que o tempo seria diminuto para inserir esta parte em uma atividade coletiva. Ora, já não todos reclamam quando vão a uma palestra e o palestrante lê? Obviamente, a resistência é ainda maior quando se trata de Brasil e dos costumes dos brasileiros. E, claro, ainda há os que acham que “ler para” é algo que se faz para crianças.


Realizando essa experiência, como pesquisadora e escritora, eis minhas conclusões:


1. Entendi porque Dickens nunca deixou de ler, até sua morte, para seus leitores.

2. Compreendi a força deste contato e sua importância e o que ele poderia ser em épocas mais pautadas na imaginação que nas imagens. Um tipo de compreensão não apenas intelectual, mas física, de uma forma que somente a experiência permite.

3. Percebi a necessidade de se reler em voz alta o que se escreve para que o texto fique realmente fluente.

4. Lamentei o fato de a leitura em voz alta estar esquecida nas escolas. Ler e ouvir ler são partes importantes da experiência humana. Se a primeira nos é inerente, a segunda não deveria nunca ser abandonada.

5. Alcancei outras significações da palavra contato nos termos literários, percebi o quanto ele nos faz crescer, e que, abrir mão disso, é perder mais do podemos mensurar.

  • Amazon - Círculo Branco
  • Instagram ícone social
  • Facebook Social Icon
  • Twitter Social Icon

© 2019 por NIKELEN WITTER criado com Wix.com